A inscrição e aceitação...

 

A documentação foi-lhe entregue e rapidamente seguiu para Lisboa onde se deveria inscrever numa bela instituição de solidariedade social.

 

Seguia expectante pois seus olhos ainda estavam macerados pelos exames feitos pelo seus médicos habituais.

 

Lá deu com a entrada e rapidamente se deslocou de elevador até a um segundo estágio de sua nova vida.

 

Atendido por alguém diferente de seu sexo mas de mesma ambição de se ver curado escutou assim:

 

*   Olha cá. Sabes ler...e ... também escrever...?

 

Resoluto resolveu dizer que sim

 

*   Então toma lá estes três papeis e preencho-os com os teus dados pessoais (à medida que lhos estendia)

 

*   Porquê não preenches tu (perguntou-lhe sorridente)

 

*   Olha meu menino é porque eu não vejo para escrever à mão fá-lo tu se fizeres esse obséquio.

 

*   Homessa ... (aqui começou um drama entre ambos) é que eu também sou como tu...

 

*   Hhhaaa ... desculpa lá ... Ó meninas ajudem aqui este senhor  a preencher estes papeis que também não vê como eu...

 

Riram-se ambos sob olhares experientes e atentos e ele lá se dirigiu a quem via e sabia também preencher aquela papelada a mais para candidatos a cegos aparecidos por ali sem ver convenientemente por despromovidos de visão suficiente para poderem escrever à mão...

 

Cumpridos os trâmites usuais e normais lá foi ele afoito pensando que estava a sair dali já curado mas entrou na real só dentro do elevador e desejou encontrar o botão para o rés do chão...

 

Mas aquela que havia preenchido a papelada todinha e o acompanhou ao patamar lá se resolveu acabar com este teste de visão do candidato a sócio carregando no botão certo e desejando bom regresso a casa sem ser atropelado pelos transeuntes que aquela hora circulavam cabisbaixos de cansados nos seus regressos a casa.

 

E assim foi feita a sua inscrição na ACAPO sem ninguém que o acompanhasse pois ainda tinha cabeça tronco e membros:

 

*   Cabecinha para se orientar mentalmente.

*   Tronco para absorver certos choques de transeuntes distraídos.

*   Pés e pernas para andar.

*   Braços para se suster

*   Mãos para não morrer de inanição

*   Dedos para seu teclado dedilhar

*   Ouvidos para escutar

*   Nariz para sorver novos ares

*   Boca para se manifestar

*   Dentes para mordiscar

*   E língua comedida... (...)

 

Bom e santo domingo que hoje foi o dia de fazer de contador de histórias alheias.

 

Marcolino Osório

-Peregrino-

2005-05-29

 

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